Congresso Estadual de Agronomia
Seropédica-RJ – 7, 8 e 9 de agosto de 2003

Os Engenheiros Agrônomos e Estudantes de Agronomia, reunidos no 4º Congresso Estadual de Agronomia, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, nos dias 07, 08 e 09/08/2003, conscientes da sua responsabilidade profissional e política face aos problemas que agravam a oferta de alimentos, a preservação ambiental, a saúde, o desenvolvimento rural sustentável e a qualidade de vida da sociedade do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil, decidem divulgar para a sociedade a

CARTA DO RIO DE JANEIRO

que expressa o compromisso dos engenheiros agrônomos e demais profissionais participantes do congresso, na busca do desenvolvimento rural, da sustentabilidade e da qualidade de vida, que assegurem o exercício pleno da cidadania para todos os brasileiros.

Os seres humanos, com matrizes na natureza, devem buscar a harmonia entre o bem-estar psicológico, equilíbrio orgânico e satisfação econômica, mantendo com a natureza um relacionamento harmonioso.

Queremos transformar a lógica política, econômica e social vigente, excludente da maioria da população, reafirmando nosso compromisso com a busca de alternativas para alterar a situação atual.

Impactados, percebemos, a cada dia, o aumento da degradação dos recursos naturais, do solo, da água e a poluição ambiental, os processos de erosão, desertificação, compactação e acidificação, declínio do conteúdo da matéria orgânica e da biodiversidade, uso abusivo de agrotóxicos e diminuição da fertilidade natural.

Os problemas relativos à água se agravaram nos últimos anos, exigindo medidas urgentes do poder público e da sociedade, para manter e recuperar os recursos hídricos de forma a atender a demanda crescente de água por todas as atividades desenvolvidas pela população rural e urbana.

A sociedade brasileira nas eleições de 2002, exigiu com seu voto uma mudança efetiva de comportamento dos dirigentes públicos responsáveis pela formulação de políticas agrícolas e pelo desenvolvimento sócio econômico, priorizando recursos suficientes para as políticas públicas que visem o desenvolvimento rural sustentável, a resolução das questões ambientais, sociais e econômicas que promovam a cidadania para toda a população brasileira.

A exemplo de outros Estados da federação, o Estado do Rio de Janeiro têm mais de 90% dos produtores com área até 100 hectares, 53% em áreas com menos de 10 hectares, reforçando a necessidade de investimentos significativos no agricultor familiar e nos assentados rurais, objetivando produções sustentáveis, que contribuam para a oferta de alimentos de melhor qualidade para a população.

O apoio à agricultura familiar deve mais do que nunca se tornar realidade, razão pela qual não aceitamos dividir a agricultura brasileira em dois segmentos; a agricultura familiar e a pequena produção de um lado e a agricultura empresarial de outro, como se uma fosse mais importante que a outra.

A agricultura familiar, além de manter milhões de postos de trabalho, é responsável por uma produção expressiva de alimentos e de matérias primas que suprem o setor agroindustrial. Políticas que garantam a comercialização plena da produção são fundamentais para alavancar e garantir o sucesso de programas de governo como o Programa Fome Zero e outros programas sociais similares nos estados e municípios.

Apoiamos todas as ações que promovam a retomada do crescimento da atividade agropecuária, sob os aspectos econômico, social e ambiental, principalmente as que objetivem a agregação de valor aos produtos e proporcionem maior renda para os produtores. A Reforma Agrária é essencial neste contexto. A alimentação é um direito elementar de todo o ser humano. A implementação de políticas públicas de comercialização, de abastecimento e de segurança alimentar, é fundamental para garantir a tranqüilidade social, a ordem pública, o desenvolvimento social e econômico do país.

Defendemos o amplo acesso à terra e ao crédito, incluindo os parceiros e arrendatários, bem como aos programas de Governo que viabilizem, nas pequenas propriedades, atividades vocacionais, tais como a fruticultura, a floricultura, a olericultura, medicinais, entre outras, como também o estímulo ao turismo rural e o apoio à agricultura urbana neste novo desenho das cidades.

A atuação crescente do Engenheiro Agrônomo, nas cidades, na agricultura urbana, na execução e manutenção de áreas verdes, no controle de vetores e pragas, inclusive em residências, shoppings, empresas industriais e comerciais, exige de nós uma total atenção no uso e aplicação de produtos tóxicos, observando a segurança, os cuidados ambientais e a busca constante na redução de resíduos perigosos, compromissos da categoria para com a sociedade.

Atualizar as grades curriculares dos Cursos de Agronomia é uma necessidade constante. É urgente a reestruturação dos setores públicos agropecuário e ambiental, dotando-os de recursos humanos, físicos e financeiros compatíveis com as reais necessidades do Estado e do Brasil. A realidade exige a integração das instituições públicas e o estabelecimento de parcerias com o terceiro setor e com o setor privado, que otimizem as ações.

Alterar a situação atual, exige a realização de concursos públicos para ampliação dos quadros profissionais das empresas e órgãos públicos de extensão rural e pesquisa agropecuária, nas secretarias municipais de agricultura e de meio ambiente.

Em defesa do desenvolvimento rural, da sustentabilidade e da qualidade de vida, objetivos que culminam na valorização do ser humano, o nosso maior compromisso, os congressistas do 5º CEA apresentam sua colaboração ao processo de desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil.

 

Rio de Janeiro, 09 de agosto de 2003

 

PROPOSTAS APROVADAS

 

CÂMARA TÉCNICA - MEIO AMBIENTE, ÁGUA, DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVEL

Propor melhoria no repasse de tecnologias ambientalmente sustentáveis aos agricultores.

Agir localmente e pensando globalmente , objetivando o desenvolvimento rural sustentável.

Que seja incentivada pela AEARJ a ênfase na capacitação dos estudantes de agronomia nas áreas de agro ecologia, agricultura orgânica e sistemas agro-florestais.

Que seja proposta ao IBAMA a regulamentação da exploração agro-florestal e suas metodologias, por parte de moradores estabelecidos em áreas de proteção ambiental ou próximas à reservas e áreas de preservação permanente, mediante a apresentação de planos de manejo que incluam entre seus objetivos o aumento da biodiversidade.

Elaboração de zoneamento agro silvo pastoril e climático para planejamento e ocupação e uso do solo em todo o Estado do Rio de Janeiro.

Adotar a microbacia hidrográfica como unidade de planejamento e gestão para o desenvolvimento rural sustentável e apoio à agricultura familiar no Estado.

Ampliar a atuação de órgãos de pesquisa e extensão rural para educação e conscientização da população do meio rural sobre os problemas ambientais locais, nacionais e globais, utilizando a metodologia de planejamento em microbacias hidrográficas.

A qualidade de vida em interiores (edifícios comerciais e residenciais), se constitui em um mercado promissor para atuação do engenheiro agrônomo. A produção de plantas ornamentais para retirada dos gases tóxicos foi pesquisada pela NASA, nos EUA durante 30 anos. Há hoje um mercado bilionário, nos Eua e na Europa. A atividade visa melhorar a qualidade de vida em interiores. A AEARJ deve apoiar e divulgar este estudo..

Criação do Selo Verde - Devemos ter nos municípios e no Estado do Rio de Janeiro, a criação de um selo verde, para caracterizar para os consumidores quais são as empresas ambientalmente corretas. No município do rio de Janeiro selo verde foi criado na SMAC (Secretaria Municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro), mas está engavetado. O selo poderia gerar milhares de empregos, investimentos em meio ambiente, possibilitando ao consumidor escolher seu consumo em função do parâmetro ambiental.

Fazer cumprir a legislação ambiental existente. Incentivar o uso racional dos recursos naturais. Associar conservação e recuperação ambiental com rendimento econômico nestas áreas assim preservadas

Fortalecer o serviço de fiscalização florestal e ambiental dos órgãos competentes.

É necessário criar novos canais de difusão de tecnologias da Embrapa através de técnicas de DRP(diagnóstico rápido participativo) e desenvolvimento local, utilizando como ferramenta a educação ambiental, DRP e atividades não agrícolas (agroindústria de alimentos, turismo, etc.) com a formação de grupos governamentais ou não governamentais capacitados em realizar esta difusão de forma planejada.

 

Proposta para reflexão - A forma como a Aracruz vem se estruturando é questão de segurança nacional, na medida que coloca em risco a biodiversidade. Não há preocupação com a degradação ambiental. Isso ocorre sob o respaldo das políticas distorcidas para o meio ambiente e aproveitando a ineficiência da fiscalização pelos órgãos ambientais.

 

CÂMARA TÉCNICA - QUESTÃO FUNDIÁRIA, AGRICULTURA FAMILIAR, DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVEL

 

Criação pelo PRONAF de suporte creditício à agricultura de transição do modelo tradicional ao orgânico.

Maior integração das universidades à realidade dos agricultores através da participação em programas voltados para a questão fundiária, agricultura familiar e desenvolvimento rural sustentável.

Integração das universidades na questão da agricultura familiar como formas de contribuir na formação do agrônomo

 

CÂMARA TÉCNICA - FORMAÇÃO, VALORIZAÇÃO, FISCALIZAÇÃO PROFISSIONAL, MERCADO DE TRABALHO

 

UNIVERSIDADE

Que as universidades invistam mais na informação do estudante sobre legislação do exercício profissional.

Que as universidades aprofundem a formação profissional na área de legislação profissional e legislação ambiental.

Que o ensino das universidades públicas dê ênfase para o conteúdo agropecuário e sócio econômico do estado.

Que a universidade garanta a formação eclética do profissional de agronomia ministrando conhecimentos em todas as áreas de atribuição profissional definidas pelo sistema Confea/Crea.

Que seja incluída disciplina sobre comercialização agrícola no curso de Agronomia.

AEARJ

Que a AEARJ promova junto aos órgãos públicos federais, estaduais e municipais do estado do rio de janeiro a viabilização de concursos públicos para suprir a carência de engenheiros agrônomos.

Elaborar relatório de acompanhamento das decisões do 5º CEA, adotando este procedimento nos próximos congressos.

CREA-RJ

Maior ação política do CREA-RJ junto às prefeituras e órgãos públicos em relação ao piso salarial dos engenheiros agrônomos nos editais dos concursos públicos.

Que o CREA-RJ elabore um programa de fiscalização das atividades de agronomia junto as propriedades rurais.

Que o CREA-RJ realize um seminário de fiscalização profissional agronômica para os engenheiros agrônomos.

AEARJ E CREA-RJ

Que a AEARJ e CREA-RJ promovam ações visando a garantir a participação do engenheiro agrônomo nos concursos públicos na área do meio ambiente.

Que a AEARJ e CREA-RJ oficiem os órgãos executivos do poder público sobre o devido cumprimento e observação da legislação que ordena o exercício livre da profissão.

Que a AEARJ e CREA-RJ efetuem ações políticas contra a instituição de cursos seqüenciais e novas profissões que possuam atribuições em conflito com as atribuições do engenheiro agrônomo.

Que a AEARJ e o CREA-RJ acompanhem / participem junto com a CONFAEAB e CONFEA as ações de regulamentação das excessivas concessões de atribuições profissionais aos técnicos agrícolas fixada no decreto 4560/2002.

 

CÂMARA TÉCNICA - ASSISTÊNCIA TÉCNICA, PESQUISA, COMERCIALIZAÇÃO

 

Moção dirigida ao estado para a necessidade de realização de concurso público para prover o setor público agrícola estadual

Atualização do manual de Adubação para o estado do Rio de Janeiro

Levantamento das necessidades (demandas) de pesquisa junto aos técnicos, produtores e consumidores.

Melhorar o fluxo de informações por desobstrução dos canais de comunicação entre as instituições envolvidas com assistência técnica, pesquisa e comercialização.

Promover seminário sobre associativismo/cooperativismo enfatizando as experiências positivas e os entraves através da SESCOOP, englobando produtores e consumidores.

Promover seminário específico sobre biotecnologia aplicada à agricultura especialmente a transgênica.(OGMs)

Aprofundar a discussão sobre a criação de uma Agência Nacional de Abastecimento dada a importância do tema abastecimento segurança alimentar.

Montar um programa intermunicipal de abastecimento e segurança alimentar com base no sistema integrado de comercialização, envolvendo a Central de abastecimento, os módulos municipais de Abastecimento de forma a ampliar o mercado da produção municipal, regional e estadual.

 

 

CÂMARA TÉCNICA - DEFESA AGROPECUÁRIA, FISCALIZAÇÃO, AGROTÓXICOS, RECEITUÁRIO AGRONÔMICO

 

CONSIDERAÇÕES

Tendo em vista que na agricultura do Estado do Rio de Janeiro, têm predominância a olericultura com a utilização maior de organofosforados e carbamatos, de fácil degradação, a poluição ambiental é um problema menor sendo que a preocupação com a saúde tornou-se o assunto prioritário

Dos esforços empreendidos ao nível dos órgãos de controle estadual e do CREA, os resultados alcançados foram insatisfatórios. Apesar de muitas recomendações dos CESCAS não houve uma dinâmica que melhorasse o quadro. O desafio é superar os ganhos de forma a reduzir o problema dos agrotóxicos

Apesar de ações esclarecedoras sobre os agrotóxicos para as populações produtoras, houve reincidência de irregularidades. Isto mostra ser necessário,além da conscientização, medidas coercitivas que exijam o cumprimento da legislação

 

PROPOSTAS APROVADAS

Apresentar ao XXIII Congresso Brasileiro de Agronomia a proposta de tornar mais eficiente, a fiscalização da produção dos agrotóxicos passando pela prescrição e venda até o destino final.

Incluir, na Lei estadual de Controle de Agrotóxicos, a restrição para utilização dos agrotóxicos nas áreas de cultivo urbanas.

Garantir através de lei estadual que o uso dos agrotóxicos, seja tratado de forma diferenciadas das áreas de grandes culturas para as áreas de olericultura. Para estas deve haver restrições até alcançar a classe toxicológica IV.

Promover o 4º CESCA, Congresso Estadual Sobre Controle dos Agrotóxicos.

Reativar a CECAB

Que as instituições envolvidas com fiscalização e controle dos agrotóxicos e do receituário agronômico no Estado do Rio de Janeiro, busquem a viabilização e integração de ações de fiscalização (CREA-RJ, CDSV- Coordenadoria de Defesa Sanitária Vegetal, Emater-Rio, Feema, DFA-RJ, Vigilância Sanitária, Secretarias Municipais de Agricultura, Meio Ambiente e Saúde, Ministério Público e outras instituições afins com a questão).

Que seja agendada uma audiência pública para debater a proposta de alteração da Lei estadual de controle de Agrotóxicos, contemplando todos as instituições e pessoas interessadas nesta discussão.