ARTIGO: A luta dos trabalhadores do setor energético se entrelaça com a dos caminhoneiros

A atual luta dos caminhoneiros pelo preço do diesel traz importantes reflexões para os trabalhadores da Chesf, Eletrobras e Petrobras, e suas lutas contra as privatizações.

Terça, 05 de Junho de 2018, 11:40 h

Por Mailson da Silva Neto

A atual luta dos caminhoneiros pelo preço do diesel traz importantes reflexões para os trabalhadores da Chesf, Eletrobras e Petrobras, e suas lutas contra as privatizações. Vejamos:

Privatização da Chesf e Eletrobrás

Precisamos reforçar a contradição do discurso governamental, que apresenta a descotização como principal argumento da entrega da Eletrobras e, consequentemente, da Chesf, ao capital estrangeiro. Se a solução é descotizar, podemos considerar que, de acordo com a visão do Governo, o problema central da crise da estatal é o regime de cotas.

Com a mudança no regime, ou seja, com a descotização, a Eletrobras e a Chesf, públicas ou privadas, poderão ter uma altíssima lucratividade. Ou seja, hoje a energia elétrica vendida pelas estatais, pelo sistema de cotas, custa aos consumidores R$ 40/MWh. Com a descotização, esse valor passará a R$ 200/MWh.

Não é preciso uma profunda reflexão para entender que a mesma energia quando vendida por 5 vezes o valor da cota proporcionará um maior lucro às empresas. Em detrimento da população, sem pensar na soberania energética nacional, o capital privado se beneficiará do novo sistema.

A Chesf, por exemplo, que é capaz de produzir entre 50 e 54 milhões de MWh, com o valor descotizado, passará a ter uma receita operacional de até R$ 10,8 bilhões. Essa receita é capaz de gerar um lucro líquido de R$ 5,5 bilhões, uma margem de lucro fantástica para o setor.

A dificuldade é explicar para a sociedade o fato das Usinas já terem sido amortizadas e a energia velha, já paga, ser vendida a preço de mercado. As decisões são fruto de uma política de governo que privilegia o capital e prejudica a população.

Paralisação do setor de transportes

A paralisação do setor de transporte está intimamente ligada à política de preços da Petrobras, que, desde 2016, tem privilegiado o capital estrangeiro e sendo orientada pela dolarização.

Precisamos ter a compreensão principal de que a Petrobras é autossuficiente na produção de petróleo. Entretanto, por determinação da direção de empresa, as refinarias vêm funcionando com redução de 40% de sua capacidade. Fato este que tem forçado a importação, com a finalidade cobrir o déficit interno.

Segundo Nota Técnica do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), Com as plantas de refino do país é possível refinar 2,4 milhões de barris/dia para uma demanda de consumo interno de 2,2 milhões de barris/ dia. O Brasil exporta óleo cru e importa combustível refinado. A Agência Nacional de Petróleo e Gás (ANP) publicou que, em 2017, o país aumentou a importação de gasolina em 82% e em 67% do diesel.

Do outro lado do “jogo”, estão os caminhoneiros. Uma média de um milhão de profissionais responsáveis por 70% do transporte de cargas do país. O recrudescimento da economia, a significativa redução dos preços dos fretes e o aumento absurdo do diesel de R$2,50 em 2016 para mais de R$4,00 em 2018 são mais que desafios, impostos a partir do golpe que vivenciamos em 2016, para esses trabalhadores e toda rede que eles fazem parte.

Em um cenário de ameaças permanentes de privatizações, oriundas da política ideológica invertida, de valorizar o privado e sucatear o que é público, afetando a soberania do país, o governo se encontra numa das maiores crises da história brasileira. De acordo com eles, “reféns de caminhoneiros”, que emergem como um verdadeiro tsunami social, paralisando o país de norte a sul e de leste a oeste.

 

*Mailson da Silva Neto é engenheiro eletricista e diretor do Senge-PE

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